Mais uma vez, a cultura não é prioridade para Guarulhos

Evento do Slam do Prego: um exemplo de atividade cultural que aquece a praça Getúlio Vargas nos últimos anos | Foto: Fernando Martins

Toda mãe e pai tem alguns bordões, e o meu pai não é diferente. No caderninho de frases dele existem algumas sentenças que são relembradas e repetidas sempre com a mesma intensidade da primeira vez.

Uma das frases era dita toda vez que passávamos na praça Getúlio Vargas desde que eu era criança. Ele dizia “é um absurdo esse prédio aí parado… esse coreto sem ninguém. Deviam usar esses espaços para fazer um show, um teatro”.

O tal prédio parado é o antigo prédio da Câmara, que há anos está sob o olhar da cultura para ser usado como um espaço cultural, porém, recentemente, foi decidido que o prédio será entregue para a Guarda Civil Municipal (GCM).

Inclusive, a mudança já está em curso e o espaço será usado pela Secretaria de Assuntos para Segurança Pública. Olho para essa decisão e penso na contradição exposta na ideia de uma Segurança Pública que trabalha com práticas de esvaziamento dos espaços públicos.

Eu penso “Afinal, o que faz você se sentir seguro? O que é estar em segurança?” Para mim – e respaldada por explicações biológicas – o ser humano se sente mais seguro em bando, assim como são os animais, e fica evidente que o que mais nos traz união é a cultura, uma vez que a cultura não é nada além do estar junto.

Podem dar um milhão de explicações pomposas e tentar elitizar o conceito de cultura, mas cultura é tão somente viver e perpetuar coletivamente nossos costumes, rituais, expressões e ideias. Cultura é comer feijão com arroz, e existe algo que te deixa com maior sensação de segurança do que comer um feijão com arroz quentinho?

Muita burocracia e arbitrariedade fazem com que contemplar e fazer arte e cultura não seja prioridade novamente, mas precisamos entender que a cultura e a educação são soluções para outros problemas que a sociedade enfrenta.

Afinal, a destinação de um espaço público para a cultura é uma forma de fazer segurança pública. Assim como pensar no acolhimento e em melhores políticas de saúde e moradia para a população em situação de rua que vive na praça, também é uma forma de fazer segurança pública.

A medida em que existe um show ou uma peça de teatro no prédio que fica na praça, as pessoas circulam, o espaço ganha outra dinâmica, os comércios ao redor ficam mais ativos, e assim conquistamos a sensação de pertencimento, e consequentemente, segurança, de um espaço que é público. Fazer segurança pública não precisa estar associada ao uso da força policial, que no caso da população em situação de rua, pouco pode fazer para ajudá-los.

*Beatriz Mazzei é graduada em Jornalismo e moradora de Guarulhos, assessora de imprensa de cultura e entretenimento, repórter de temáticas sociais e de gênero, e escritora de contos, crônicas e poesias curtas.

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