O que as queimadas no Pantanal tem a ver com o vegetarianismo?

Foto: Doutora Juliana Kopczynski

Bom, hoje irei dividir minha vivência nos ares das queimadas no Pantanal. Fiquei nas redondezas do Rio Paraguai, em uma pousada chamada Baiazinha. Onde foi criado um centro de atendimentos aos animais resgatados.

Para a minha surpresa meu primeiro paciente foi um “bebe” Neloy (para quem não sabe um bezerro filhote, que é destinado ao corte, que quer dizer que ele ia crescer e ser abatido para o consumo da carne). Isso já me impactou profundamente, porque não faço diferença entre os animais, nenhum deles têm mais direito que outro, tem vida assim eu respeito.

Na ida até esse hotel foram 80 km de estrada de terra batida, na qual passávamos por 4 propriedades, e isso me chamou muito a atenção, pois presenciei animais em um calor absurdo, se alimentando em um pasto superquente. Enfim, mas, por que Dra, você está falando isso?

Tá aí, você sabia que a maioria das queimadas tem intervenção humana? E que o fogo serve, justamente, para abrir espaço para a criação de pastos para produção desses animas, desmatando a vegetação e criando pastos e lavouras.

Bom, queria escutar sobre os silvestres, os resgastes, o projeto…sim isso vai ser conteúdo para as próximas colunas!

Hoje o meu apelo vai para o fim das queimadas, sim elas são comuns sim no Inverno, porque as temperaturas são altas e a taxa de umidade é baixa, isso tudo associado à intervenção humana (no desmatamento), chegou a uma proporção de 28 % de destruição do nosso Pantanal. Nosso patrimônio, nosso Bioma que, diga-se de passagem, para destruir é muito fácil, mas, para se recompor vai aí uns bons anos. Todos podemos ver, clara e nitidamente, que essa situação já saiu controle.

Mas, Doutora, você é contra o Agronegócio?

Não, mas da forma que está sendo feita eu responderia sem pensar duas vezes que sim. Não digo para todos deixarem de comer carne, mas diminuir, porque essa conscientização é para um mundo melhor.

Hoje os Veganos e os Vegetarianos, têm sim um espaço, visando nosso meio ambiente, pois não enxergam como única, a opção de comer animais. E com a diminuição das chuvas as planícies inundadas são cada vez menores, isso faz com que cada vez mais o homem tenha que intervir.

Desmatamento com queimadas equaciona um problema ambiental imenso, mas que para muitos se justifica com a economia pecuarista e agrícola, destacando-se a plantação de soja na região pantaneira. Mas não podemos esquecer que dinheiro não é comida, logo a preservação ambiental é imprescindível.

Como consequências diretas e imediatas, podemos citar animais com queimaduras, intoxicação e a morte de vários deles. Alguns animais do Pantanal, como onças, capivaras, tuiuiús, araras, jacarés, tatus, sucuris e tamanduás, costumam se refugiar do perigo iminente.

Entretanto, essa fuga vai até o limite corporal do animal, o que pode fazer com ele saia do seu habitat natural e fique desorientado devido à fumaça e cinzas. Com isso, alguns animais acabam morrendo de cansaço ou mesmo de fome, pois não encontram alimentos em meio a um ambiente hostil e diferente do que estão habituados. Isso sem contar nos animais que não conseguiram sair do ambiente aonde estava ocorrendo a queimada.

As mortes dos animais estão entre as mais graves consequências das queimadas, pois, além de ser uma grande perda biológica, há o desequilíbrio na cadeia alimentar do bioma. Sem contar na fumaça, que encobre a região levando problemas respiratórios, péssima qualidade do ar e ainda as cinzas deixadas pelo fogo. Que vai gerar problema assim que voltar a chover, por mexer com o ecossistema aquático, por conta do assoreamento e intoxicação dos animais, deixando inviável para o consumo humano.

Em uma das rondas fiquei 40 minutos sem ver animal nenhum, no Pantanal. Na beira do Rio onde a Mãe Natureza estava tentando se reerguer diante de todo aquele caos. E aquele silêncio ecoou dentro de mim.

Cuidamos do “Boizinho” e inclusive, ele teve um final feliz, hoje está no Instituto Luiza Mell e vai receber os cuidados necessários, mas essa vivência que transmito por meio destas palavras, deixa meu alerta para que você tenha a consciência que ao consumir carne que sua origem cobra um preço muito caro, “não existe um pé de carne “. Nosso planeta está pedindo socorro e nossos animais, e florestas, estão sendo destruídos pela ganancia humana.

Aproveito para deixar uma reflexão sobre a degradação de nossa fauna e flora em prol de um bife em seu prato, se você não consegue parar, pelo menos diminua, a indústria da carne é movida pela lei da oferta e procura.

Se você chegou ao final deste texto, deixo aqui meu convite para acompanhar, em minha próxima publicação, todo o ocorrido na região, irei falar do que aconteceu lá e sobre estratégias e apelos políticos que permeiam o tema.

Juliana Kopczynski é médica veterinária formada pela Universidade Estadual de Santa Catarina. Pós-graduada em clínica cirúrgica, atua nesta especialidade tratando de amimais domésticos e exóticos. Seu principal engajamento são as ações sociais para a causa animal, visando sempre o bem-estar dos seres vivos, assim como a pesquisa científica.