Falta de matéria-prima atrapalha retomada da indústria brasileira

Foto: CNI/Miguel Ângelo/Direitos reservados

Por causa da crise, retomada do mercado pegou os fornecedores despreparados e quase 70% das indústrias tem dificuldade em comprar insumos; agronegócio também foi impactado

Após o auge do impacto econômico causado pela crise do coronavírus, a indústria já dá sinais de retomada. Isso poderia até ser uma boa notícia se não fosse pela falta matéria-prima no mercado.

Segundo dados de uma pesquisa realizada, em outubro, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 68% das empresas consultadas revelam dificuldades para comprar insumos ou matérias-primas no mercado doméstico e 56% no internacional. 

Essa dificuldade é relatada em 10 dos 27 setores industriais consultados. O setor de móveis foi o mais afetado, 70% das empresas estão com dificuldade para atender a demanda. Em seguida vem o setor têxtil (65%) e o de produtos de material plástico (62%).

Se não bastasse a incerteza e preocupação devido a pandemia, esse cenário atrapalha e implica diretamente na recuperação das atividades e na estabilidade da indústria. De acordo com a sondagem, 44% das empresas estão deixando ou demorando para atender os clientes por causa do estoque reduzido. Além disso, há falta de trabalhadores e de recursos.

Para 23% das indústrias falta mão de obra, e 22% dizem que não têm recursos ou capital de giro para aumentar a produção. Segundo a CNI, em setembro, as fábricas já vendiam mais do que antes da crise causada pelo COVID-19, mas os fornecedores não voltaram no mesmo ritmo. 

Isso porque, no início da pandemia a demanda caiu, o que levou as empresas optaram por reduzir seus estoques para enfrentar, além da queda no faturamento, o difícil acesso ao capital de giro.

O que não se esperava era a reação rápida do mercado, que pegou os fornecedores despreparados e provocou um desequilíbrio entre oferta e procura por insumos e matéria-prima.  O estudo também indicou que, além da falta desses itens, mais de 80% das empresas perceberam aumento nos preços, sendo que 30% delas evidenciaram um aumento acentuado.

De acordo com a CNI, tanto produtores quanto fornecedores estavam com os estoques baixos, o que gerou escassez e, após a retomada econômica, maior demanda. Somado a isso, ainda houve a alta do dólar e forte desvalorização do real, que contribuiu para o aumento do preço dos insumos importados. 

Agronegócio

Apesar de o agronegócio ser um dos poucos setores que se desenvolveram em ritmo acelerado em 2020, com perspectiva de crescimento, há também dificuldade na busca por insumos.

De acordo com Mario Casale, CEO da empresa, “há dificuldades em obter alguns materiais necessários para a fabricação dos nossos equipamentos, principalmente produtos cuja matéria prima é o aço. Outra consequência disso é que perdeu-se a referência de preço, quem tem produto cobra muito caro”, afirma. 

No caso do aço, por exemplo, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), só empresas de grandes porte têm condições de comprar esse item diretamente nas usinas, ou seja, mais de 90% compram o material nas distribuidoras e, por isso, nesse momento, há uma demora para atender a demanda e aumento no valor do produto.

O aço é fundamental e utilizado em diversos setores da indústria, como na construção civil,  na produção de veículos, equipamentos e máquinas agrícolas. 

“Esse insumo é a principal matéria-prima utilizada na Casale e nas indústrias de máquinas em geral. Essa escassez  está limitando muito a capacidade de retomada e do aumento na produção. Até o momento, para não deixar nossos clientes na mão, reduzimos nossas margens e conseguimos trazer as matérias primas pagando mais caro, mas alguns fornecedores informam que não terão produtos para entregar, o que é muito preocupante”, enfatiza Jaqueline Casale, Diretora de Compras  da Casale. 

De acordo com o Instituto Aço Brasil, a retomada econômica está ocorrendo de forma mais rápida que o previsto, mas a estabilidade só deve ocorrer mesmo em 2021.  O fato é que, em um contexto geral, até os estoques serem repostos e o mercado normalizado, o Brasil terá que lidar com a falta de alguns produtos e os altos preços.