GO ENTREVISTA: André Okuma

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Nosso entrevistado da semana é o cineasta André Okuma, nascido em Santo André, formado em Cinema pela Escola Livre de Cinema de Santo André (SP), e em História da Arte pela Universidade Federal de São Paulo UNIFESP, mestre em História da arte pela mesma instituição. É fundador do núcleo de cinema Coletivo 308 em Guarulhos.

Confira:

Como surgiu sua paixão pelo cinema?

Na verdade ela veio meio que por acaso, eu tinha um tio que era dono de uma locadora e por conta disso eu pude ver muitos filmes quando era criança. Eu sempre gostei muito de inventar coisas, independente do que for, já escrevi poesias, tive uma banda de rock, fotografei, trampei com cenografia pra teatro e etc, criar é o que me instiga, posso dizer que sou apaixonado por criação. O cinema veio tarde, fui me apaixonando de fato com o tempo, aliás, minha relação com ele é de amor e ódio (risos).

Qual tipo de filme você mais gosta?

Eu gosto de filmes de todo tipo, mas depois que você estuda cinema e entende alguns mecanismos de narração e linguagem, você percebe os excessos de clichês e isso chega a incomodar. Por isso, meu gosto pessoal tem ido pra coisas que sejam menos convencionais, imprevisíveis ou visualmente muito impressionantes, mas não tenho predileção por nenhum gênero específico.

Quais são as suas principais referências?

Sem dúvida, atualmente o cinema marginal brasileiro de Sganzerla, Tonacci e Candeias. No geral, de tempos em tempos minhas referências vão mudando, no começo eu pirava em Wim Wenders e Michel Gondry, depois em Wong Kar Wai e Kurosawa. No geral, cineastas que tem uma pegada mais sensorial do que narrativa.

O que você acha do cinema nacional?

Acho muito bacana, mas cheio de controvérsias, porque tem o lance da Globo Filmes e das poucas políticas culturais que transformam o cinema brasileiro em mercadoria de consumo rápido, e que tem jogado o mercado cinematográfico nacional num circulo vicioso terrível. Por outro lado, tem surgido uma nova onda de cineastas absolutamente incríveis e fora do eixo Rio-São Paulo, como o Kleber Mendonça e o Claudio Assis em Recife, a Filmes de Plástico na Grande Belo Horizonte e o Adirley Queiroz em Brasília. Há ainda um emergente movimento de cineastas negrxs, principalmente mulheres, produzindo coisas muitíssimo instigantes como a Yasmin Thayná, Viviane Ferreira, Renata Martins e a Thais Scabio.


Conte um pouco da sua trajetória até produzir seu primeiro filme?

Como eu disse eu tive uma infância muito povoada por filmes, depois tive uma banda de rock bem no auge da MTV Brasil, então o lance dos videoclipes era muito forte, sempre quando fazíamos alguma música eu já pensava em como seria o clipe, na época queria ser duas coisas, baterista e diretor de videoclipes, depois mais tarde fiz um curso de cenografia e figurino de teatro e comecei a trabalhar com isso, na época surgiu a Escola Livre de Cinema de Santo André, e como conhecia o pessoal comecei a fazer a direção de arte dos filmes produzidos lá, depois entrei oficialmente na segunda turma, e logo que terminei o curso, já comecei a produzir o que foi o meu primeiro filme.

Quais são as maiores dificuldades encontradas em uma produção independente?

A falta de incentivo é a maior dificuldade, pois fazer filmes exige muita energia e algum dinheiro, e quando você não tem dinheiro, você gasta o triplo de energia. Depois a maior dificuldade é exibir o filme por aí, não tem muitos espaços para filmes independentes.

O que você acha dos incentivos dados pelo governo atualmente para quem quer fazer filmes?

Na atualidade, estamos vivendo um dos piores momentos da cultura no quesito incentivos dados pelo governo, pois simplesmente eles estão sendo extintos ou reduzidos a menos da metade. Porém, isto não quer dizer que antes fosse bom, haviam mais editais e dinheiro, entretanto, só uma parcela muito restrita de cineastas conseguiam acessar estes recursos, pois a burocracia era muita e somente realizadores muito bem preparados e com networking conseguiam produzir, “coincidentemente” homens ricos e brancos. Negros, mulheres, indígenas e periféricos quase não eram contemplados por estes incentivos, o que fazia com que a produção nacional em geral fosse muito desigual e com pouca diversidade de narrativas.

Qual dica você pode dar para quem quer começar a produzir filmes?

Assista filmes, séries, novelas, desenhos e etc, do mais tosco ao mais sofisticado, tente perceber padrões e variações, leia artigos e entrevistas de cineastas e críticos, veja tutoriais de linguagem de cinema, de manuseio de câmeras (pode ser celular inclusive), de edição de vídeo no Youtube. Vá em mostras de curtas-metragens, conheça os cineastas locais, participe de produções, mesmo se for pra carregar o piano, e seja humilde, o ego do cineasta é o pior inimigo dele mesmo.

Qual a importância dos festivais para fomentar a cultura do cinema?

Os festivais são importantes para fazer circular filmes que não tem um formato comercializável, e promove encontros de cineastas com outros cineastas, fortalecendo a cena e fomentando reflexões para novos olhares. Porém, há festivais e festivais, por exemplo, festivais que só exibem filmes e estendem um tapete vermelho e só exibe filmes tecnicamente impecáveis só perpetua um olhar elitista sobre o cinema. Agora festivais que tentam contemplar uma maior diversidade de trabalhos, promove debates, oficinas, e tentam trazer discussões que não são meramente técnicas e sim humanistas, e que acima de tudo priorizem a participação de um público que não teria acesso a uma mostra de filmes como essa, na minha opinião, é um festival de fato importante para um real fomento da cultura e do cinema.

Conte um pouco sobre os seus projetos, está trabalhando em algo no momento?

Estou na pré produção de um curta metragem que se chamará “Nuvem Baixa”, será um filme de viés mais poético (não realista) da época em que vivemos, a era Bolsonaro, a partir do ponto de vista de um artista de rua. Estou também participando de uma peça teatral chamada “História de um lugar” do Grupo Glacê de Teatro, uma peça livremente inspirada do livro “Cem anos de Solidão” do García Marquez, na montagem tem umas intervenções audiovisuais produzidas por mim. Já fiz diversos trabalhos no teatro e pra mim também é sempre uma experiência incrível.

O que você acha da produção de filmes na cidade, o cenário é positivo?

Sim, Guarulhos de uns anos pra cá tem produzido de maneira consistente e com cada vez mais qualidade, o Cineclube Incinerante, projeto de realizadores da cidade tem exibido filmes por toda a cidade, dando acesso do público a produção local, muitos realizadores tem ganhado prêmios fora da cidade. Destaco o trabalho do Coletivo Kinoférico, do Coletivo Polissemia, Bueiro Aberto, do Moisés Pantolfi e do Rubens Mello.

Sei que ministra cursos em Guarulhos, como está a expectativa para novas turmas em 2020?

Tenho pesquisado e me dedicado a pensar formas mais dinâmicas e simples de produzir filmes sem depender de grandes aparatos cinematográficos e recursos financeiros, e gostaria de levar isso para uma formação com alunos principalmente em regiões periféricas. Além disso, possivelmente darei também aulas no projeto de oficinas do Coletivo Kinoférico, no SESC Guarulhos, pela Prefeitura de Guarulhos e Santo André, e onde mais me chamarem (risos). Dar aulas é o meu grande foco no ano que vem.

 

 

 

 

Foto: Daniel Herrera