GO Entrevista: André Bizorão, professor, ator e palhaço

Foto: Rafael Vieira

“Respeitável público” essa semana o GO Entrevista tem a honra de apresentar a conversa com André Bizorão, entre outras coisas ele é arte-educador, ator, produtor audiovisual e curioso profissional e contou ao Guarulhos Online como é a vida do artista/educador na cidade, além de suas aventuras, projetos e opiniões.

“Há aproximadamente dois anos, conheci e comecei a estudar Hipnose, está sendo uma paixão intensa, descobrir que é possível tratar de traumas e transtornos mentais através da comunicação me encanta”. André

  • Instagram: @andrebizorao

Confira:

Antes de tudo: Quem é André Bizorão?

André Bizorão é um artista inquieto, caótico e que não aceita se acomodar, acredita na transformação de estados estáticos em realizações espetaculares. Sou palhaço profissional, “improvisAtor”, mestre de cerimônias e sei fritar ovo… Pai de dois filhos incríveis e extremamente falantes e casado com a pessoa mais paciente do mundo!

Por que desse nome?

Escolhi o nome para chamar a atenção e causar estranheza, dificilmente alguém esquece o meu nome artístico. Tudo surgiu numa brincadeira na oitava série, eu sonhava em ser músico igual aos Mamonas Assassinas.

Nós “brincávamos” de ter banda, mas, não tínhamos nome, quando levei uma lista tipo uma enquete para decidir o nome que o grupo teria e, um dos nomes era “Os besourões”, um daqueles meninos que se mete a ser o mais babaca da sala olhou para mim e disse: “Você tem mesmo cara de Bizourão”.

Tentei me ofender, mas algo estalou dentro dos meus miolos naquele instante, então, nesse caso o bullying se perdeu. Algum tempo depois virou meu nome de batalha artística. Obrigado babaca da minha sala!

Anos mais tarde eu descobri um significado mais poético com o filme do lendário capoeirista “Besouro”, tem um trecho que diz mais ou menos assim: “Pelas suas características físicas, um besouro não deveria voar, mas de teimoso, voa!”.

Aquilo remexeu ainda mais comigo, porque teimoso, eu sempre fui e, para ser artista em Guarulhos, São Paulo, Brasil, Planeta Terra… A gente precisa ser muito, muito teimoso!

Conte-nos como é ser palhaço nessa cidade?

Eu prefiro contar como é ser artista sob o meu ponto de vista, senão fica parecendo que eu respondo por uma linguagem tão complexa e importante como é a do Palhaço. Ser artista em Guarulhos é comer o pão que o diabo amassou com o sovaco!

E pode parecer engraçado, mas não é! Sem leis de incentivo, sem portas abertas nos espaços culturais, sem uma política pública efetiva fica difícil manter aceso o farol que sempre nos sustentou, a Esperança!

Ser artista nessa cidade depende muito da sua postura, das suas opiniões, de quem você vai puxar o saco, de quem vai te facilitar acesso que deveria ser genuinamente público, é ser muito mais do que resistente, é ser como um mergulhador sem escafandro que precisa sobreviver ao pular no Baquirivu.

Temos uma riqueza cultural tão vasta e gigantesca, que qualquer gestor com vontade de trabalhar e de ouvir, facilmente fará com que Guarulhos seja reconhecida como uma verdadeira nação cultural, temos cineastas, escritores, dançarinos, circenses, poetas, atores e tem eu, um palhaço perdido no meio de tudo isso!

Quanto tempo de estrada como artista de rua? Quais os principais desafios?

Comecei a me jogar na rua em 2009, já são dez anos de intenso aprendizado, a rua é o MAIOR PROFESSOR DE TEATRO DO MUNDO. A gente se ‘ferra’ tanto que mais parece um músculo na academia, de tanto esticar, puxar, amassar, pressionar. Fica forte e resistente.

Uma das coisas mais incríveis na rua, é conhecer as pessoas, sejam elas ricas, pobres, moradores de rua. E por um instante, poder transformar uma realidade tão cinza e chapada num oceano colorido, sensorial e lúdico. Vemos a arte usada como analgésico para as lástimas e penúrias sociais.

Os principais desafios para qualquer artista, incluindo o da rua, é sobreviver… Anos de estudos, práticas e treinamentos muitas vezes não são reconhecidos, nem pelo poder público, nem pela plateia… O maior desafio talvez seja, NÃO DESISTIR!

Como é fazer parte dessa cena independente de cultura?

A independência muitas vezes é um discurso sem fundamento e contraditório, a gente sempre depende de alguém. Quem solta a música, faz a luz, imprime o livro, põe no envelope, limpa uma sala…

Nós não somos independentes por vontade, somos fazedores de cultura por opção de vida, seria melhor se tivéssemos a possibilidade de sermos independentes nas escolhas artísticas sendo fomentados com materiais, recursos e espaço.

Sair de casa para fazer um espetáculo toda semana por seis meses é caro, além da logística, tem alimentação, produção, divulgação. Quem consegue fazer isso na garra, sem apoio nenhum do estado ou das empresas, deveria ser canonizado.

É um verdadeiro milagre, um amor tão incondicional pela arte que muitas vezes abandonamos nossa própria vida pela missão que hora pode ser benção, hora maldição!

Como surgiu a companhia Los Xerebas?

Pessoas que se conheciam com uma vontade comum que falavam muito de palhaço, improvisação, teatro, comédia. Pouco tempo depois, todo mundo apaixonado e sem saber direito o que faziam, decidiram experimentar e pôr em prática

Corremos a cidade de cabo a rabo, até em igreja pentecostal nos apresentamos, nunca mais nos chamaram, acho que dissemos ou fizemos algo que a tradicional família brasileira não estava pronta para ouvir.

Após 10 anos vemos que algumas pessoas desse ciclo só pioraram, não enxergam, não escutam e não pensam… Todos? Claro que não, eu tô falando daqueles que não reconhecem a arte e a educação como os eixos para a verdadeira transformação que precisamos no país.

O Xerebas surgiu de encontros e por vezes nos encontramos para dar as caras por aí, talvez novos ventos soprarão e, daí quem sabe, podemos sonhar novamente com uma prática tão constante como foi no início.

Como sua família vê seu trabalho? Vocês estão sempre juntos também nas suas apresentações, como é para suas crianças ver o pai como palhaço?

Minha família vê meu trabalho com os olhos. Brincadeiras e piadas de baixo escalão a parte, tenho o grande privilégio de ser incentivado, apoiado e acreditado como artista.

Mas, nem sempre foi assim, acredito que a minha insistência, treino e estudo contínuos e as inúmeras apresentações, além da graduação em artes cênicas, fez a minha família se “acostumar” com a minha profissão, porquê é nada mais do que isso.

Alguém que sonha em ser jornalista e por esforço próprio (nada de meritocracia barata), alcança a realização dos seus sonhos, tem apenas uma profissão desejada. Eu sou palhaço, foi o trabalho que eu desejei e que descobri que não seria possível sem muito estudo, prática e o incentivo daqueles que eu amo.

Foto: Vitória Oliveira

Quais suas formações e porque você enveredou para o audiovisual? Por vontade ou necessidade?

Eu sou formado em Artes Cênicas pelo Célia Helena, tenho inúmeros cursos em Teatro, sobretudo nas minhas linhas de pesquisa, sou apaixonado por dramaturgia, improvisação, Teatro de Rua, de bonecos e claro, Palhaço que faz o meu coração pulsar mais forte.

Meu sonho de criança era descobrir como o Jaspion voava, como os robôs e monstros ficavam gigantes. Logo eu descobri duas coisas, que eu amava audiovisual e que essa área era muito inacessível para um garoto da periferia nos anos 90.

Não acreditávamos nem que seria possível fazer faculdade. Como o tempo é dono da verdade, a vida me possibilitou descobrir que o Teatro era uma possibilidade mais acessível e possível. Por isso, mergulhei aí, mas eu nunca perdi de vista a possibilidade de nadar em outras águas.

Fiz cursos livres de cinema, TV e passei a estudar softwares de edição e manipulação de foto e vídeo. BINGO! Descobri uma coisa importante, não seria viável ficar a vida inteira colocando a culpa na falta de acesso, na política pública, nas dificuldades impostas à periferia.

Descobri que deveria transpor meus sonhos em projetos, os Xerebas nasceram disso e, mais especificamente a Amálgama Web TV, um projeto de produção audiovisual que tem como objetivos democratizar o acesso às artes, aos artistas e aos pensamentos transformadores através da transmissão ao vivo de bate-papos e shows artísticos.

Você hoje pode dizer que vive da arte e da cultura?

Eu posso dizer que sobrevivo, viver de arte deve ser uma liberdade estética e de escolhas tão democráticas que o artista se sinta livre para dizer o que pensa sobre o mundo, vestir os figurinos que não necessariamente sejam bonitos, maquiar-se conforme pede a história e não as câmeras dos celulares sedentas por uma dúzia de fotos bonitas.

Viver de arte deve ser fazer inteiramente o que se ama, sonhar com isso e acordar realizando sem o medo de ficar de barriga vazia. Não conheço atualmente, um artista que se sinta confortável em ser artista no Brasil de 2020, pelo contrário, toda nossa devoção, dedicação e crença de que o nosso trabalho é essencialmente social, educativo e provocador sofre com perseguições, mandos e desmandos. Mas, o mais importante, seguimos sobrevivendo!

Se você fosse fazer um balanço sobre as apresentações que fez, como é a aceitação do público?

Se eu fosse fazer um balanço, pegaria uma “tábua” e colocaria em cima de um morrinho de alvenaria, daí chamava o público para brincar, se ele viesse, sucesso, se ele não viesse, é porque preferiu ficar jogado no sofá assistindo TV.

Foto: Rafilds Marques

Qual contexto das apresentações? Rola uma crítica social bem-humorada?

Sempre rola, mas não é fundamental, ela deve ser natural. Não adianta encher um processo de críticas sociais e sair do teatro jogando lixo no chão, desprezando o faxineiro, a atuação dos colegas de cena, o morador de rua.

A crítica social precisa estar presente na ação propriamente dita do ator, ele deve ser a crítica, criticar-se a si próprio e, depois, quem sabe, poder criticar o lado de fora. Vale um parêntese, o palhaço é um ser desajustado, ridículo, que não se encaixa nos padrões impostos pela sociedade, ele questiona o que é certo ou errado, bom ou mal, bonito ou feio e, o mais importante, assume as rédeas da sua vida vivendo como se é, sem artificialidades e coberturas lindas de um bolo sem sabor.

Você acha que o bom humor é a saída para a gente lidar com esse cotidiano mecanizado e automático?

Existe o humor e existe a comédia, um não invalida o outro e os dois são importantes. Como diz Roberto Gomez Bollaños, o Chespirito: “Rir para o ser humano, é tão importante quanto respirar e comer”. Acho importante distinguir as duas possibilidades do rir.

Podemos rir DE alguém ou, podemos rir COM alguém. E a diferença mora justamente em como o público é incluído dentro da piada, se ele for ridicularizado, inferiorizado, maltratado, discriminado, então esse humor não tem função nenhuma. Só a piada barata e vulgar onde eu uso o outro como ferramenta de escárnio.

Agora, se eu chamo essa plateia para rir comigo, de forma natural e descontraída, não saberemos ao certo quem é o artista, visto que, aquele que assiste é fundamental para abastecer com risadas, aquele que conta as piadas.

Como você vê o ‘politicamente correto’ tão discutido nesse segmento hoje em dia?

Essa pergunta é muito complexa e se eu sair discorrendo sobre ela, poderemos sair daqui com um livro nas mãos, então, vou apelar para exemplos, talvez seja mais fácil de compreender.

Talvez eu não chamasse de politicamente correto, mas sim, de humanamente correto e eu explico por quê. Pode ser que alguém ache muito engraçado fazer piada que inferiorize o nordestino, uma pessoa obesa ou outra que tenha retardo mental, e talvez, muitas pessoas riam desse tipo de “piada”.

Mas, para quem (assim como eu), tem um familiar pernambucano, outra que sofre com obesidade e também um tio muito querido com uma deficiência mental de nascença e que sempre foi a pessoa mais engraçada que eu conheci, talvez possa se ofender com um “humorista” que por falta de criatividade, repertório ou respeito pelo diferente decidiu apelar humilhando aquele que aos seus olhos é inferiorer.

Quais são seus projetos futuros? Ou em quais você tem se empenhado?

Tenho estudado hipnose há 2 anos, são 720 dias dedicados a uma ferramenta poderosa, a parte de todo preconceito, misticismo e esoterismo, vejo um futuro em que ela seja essencial para lidar com o exército de pessoas com depressão, ansiedade, fibromialgia e tantos outros males que acometem a mente humana.

Talvez, o mais importante é fazer com que todos conheçam essa ferramenta tão potente, ágil e sem necessariamente o acompanhamento de medicações tarja preta.

A hipnoterapia é algo que tenho me dedicado bastante, já começo a fazer os meus primeiros atendimentos e em breve vou me dedicar aos que buscam uma esperança para problemas que parecem sem solução.

 Outra coisa é o estúdio da Amálgama TV que passou por uma reformulação desde novembro de 2019 e agora em março, volta a transmitir entrevistas, shows musicais, palestras etc.

Muito em breve, irei democratizar o acesso a produção de conteúdo para aqueles que tenham interesse em criar seu próprio material: tutoriais, clipes, vídeos educacionais, institucionais e a maior novidade é que passaremos a produzir podcasts, os nossos e também para quem sempre quis fazer e nunca soube como começar!