Perda Gestacional e Neonatal: vozes que precisam ser ouvidas

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Falar sobre o luto é um tabu dentro da nossa sociedade, ninguém é educado para falar abertamente sobre a morte. Mas, há estudos, que comprovam que falar sobre um ente que se foi faz parte do processo de cura da dor do luto seja ele “tradicional” gestacional, neonatal ou infantil. 

A nomenclatura de luto tradicional vem em comparação ao luto gestacional ou neonatal. Pensem: quando perdemos alguém que esteve conosco durante um tempo temos memórias, lembranças, vídeos, fotos, ainda mais nos tempos de hoje em que apenas um aparelho de celular consegue registrar momentos únicos, mas e quando é um bebê que ainda nem se sabe o nome ou o sexo:

“Perdi meu bebê na semana que iria fazer o chá revelação, estava com tudo encomendado, já tinha comprado as coisas para enfeitar, minha irmã estava com o resultado, era uma menina, sempre sonhei em ter uma menina pois, já tinha um menino,” disse Juliana Toni, assistente de SAC. 

Como construir memórias de alguém que não teve a oportunidade de estar fisicamente presente em nosso meio?  

Estamos afetivamente envolvidos ao discurso de que toda a gestação é sinal de  alegria e de vida, sim e isso é traduzido para a maioria dos casais que engravidam. Este momento, seja ele planejado ou não, gera uma expectativa para todos os familiares. 

“A decisão foi difícil, mas da minha parte, pois  já tinha um filho do primeiro casamento, porém meu marido não, então pensei bem e vi que estava sendo egoísta em não deixar ele ser pai, em setembro de 2018 começamos a tentar e em outubro já estava grávida”, relatou Juliana Toni Assistente de SAC.

A gravidez no começo

A cada mês de atraso menstrual as tentantes (termo usado para mulheres que estão tentando engravidar) fazem o exame de farmácia para a confirmação ou não da gravidez. 

Com o famoso Positivo nas mãos é necessário iniciar os cuidados e exames médicos para a saúde da mulher e do bebê. O médico ginecologista obstetra ou da família solicita os exames de sangue e o primeira ultra-sonografia.

Ela tem um papel central no decorrer de toda gestação. O primeiro ultrassom indicado a partir da 7ª semana é provável identificar o saco gestacional e normalmente é possível ouvir os batimentos cardíacos fetais. O tão esperado som mágico.

Os exames de ultrassom são usados para verificar o desenvolvimento fetal e detectar algum possível problema a formação do bebê adicionando os cuidados necessário a partir de então para equipes médicas específicas. 

Com 19 semanas de gestação, através de uma ultrassom morfológica descobrimos que nosso bebê estava sofrendo de uma má formação fetal, onde a bexiga dele estava totalmente cheia sem conseguir soltar o líquido pela uretra, ou seja, Romeu estava sofrendo por má funcionalidade do seu sistema urinário. Estava tudo bem até ali, todas as ultrassons anteriores apresentavam ele dentro da normalidade e saudável, e ouvir da médica que seu filho estava com um problema e poderia ser grave, foi como um banho de água fria” expôs Thayla Araújo, analista de experiência do cliente.

Com todas as expectativas e sonhos frustrados saber que seu filho tem uma má formação é a realidade de muitas mãe, o que era para ser um momento de pura alegria, se torna dias de apreensão e preocupação.

Atendimento com empatia faz a diferença

Com viver com as inseguranças da maternidade são relatos de todas as “mães de primeira viagem” mas, existem famílias que ainda passam por uma perda gestacional ou um diagnóstico com sentença. São essas famílias que precisam de acolhimento, empatia durante todo o atendimento dos profissionais de saúde. Não é comum relatos positivos de atendimento.

No momento do procedimento, quando estava dentro do centro cirúrgico, o anestesista veio falar comigo, e comecei a chorar, parece que minha ficha tinha caído que ia tirar meu filho de dentro de mim, e ia embora sem ele pra casa, então, o anestesista, por ver como eu estava falou: “Quer tomar uma anestesia geral assim você dorme? E eu disse que sim, preferi dormir para ver se passava mais rápido,” desabafou Juliana. 

“No dia que recebemos o resultado do exame, foi verificado pelo médico que os rins dele estavam praticamente comprometidos devido a pressão do líquido acumulado no organismo. O médico foi muito transparente e delicado em nos informar a gravidade do diagnóstico do Romeu, e foi da melhor maneira possível que ele deu a notícia de que a chance de vida do nosso filho era mínima para sua sobrevivência. Foi um choque muito grande. E a partir daquele momento eu estava disposta a encarar qualquer coisa pela vida do meu filho” relembra Thayla.

São exemplos de profissionais que com todo o conhecimento técnico ofereceram sua melhor versão para esclarecer dúvidas e acolher seus pacientes. Não existem nas instituições de saúde do Brasil um protocolo específico de atendimento pós perda fetal ou gestacional. 

São diversos relatos de mães que perderam seus bebês e estão no mesmo local de mães que estão amamentando ou de profissionais sejam da equipe de enfermagem ou multidisciplinar que perguntam “como está o seu bebe”ou “já te informaram quando seu bebê vem do berçário”. 

Já em países da América do Norte ou da Europa a tratativa com mães que estão em situação de perda é a uma das melhores experiência do paciente relatada. 

Ter uma perda abrupta ou estar preparado para uma perda, não diminui ou amenizar a dor. Passar pela experiência de uma perda é extremamente doloroso Meu marido chorou muito, muito mesmo nunca vi ele chorar daquele jeito,” descreveu Juliana Toni. 

Como continuar?

“Foi sem vida que eu vi o Romeu com uma feição linda, com um rostinho tão encantador e eu só queria ficar ali admirando-o mesmo com uma dor indescritível, chorando, olhando ele a todo momento, me despedindo dele. As mães e pais enlutados passam por momentos que marcaram suas vidas. E que buscam como apoio são os grupos que existem nas redes sociais. Nos momentos onde me via sozinha, a minha válvula de escape era acompanhar grupos de apoio à pais que perderam seus filhos através da internet. Era como se sentir acolhida quando ninguém estava ali para te abraça, um sentimento de identificação quando ninguém parecia te entender. Me ajudou muito, e me ajuda até hoje” continua Thayla Araujo.

Não existe uma fórmula mágica que faça a dor sumir, mas existem grupo de apoio que transformam a dor da perda em palavras para ajudar todos que também estão vivendo essa intensidade de sentimentos. Os desafios para as mães enlutadas após passados os dias de profunda tristeza pela perda do seu filho ainda são inúmeros.

“A saudade… Ah, ela ainda habita em mim, e tem dias que ela vem com muita força. Mas o amor e gratidão pela vida do meu filho é maior, e isso me faz sentir bem. A cumplicidade que tenho com o meu noivo Victor, pai do Romeu, nos trouxe muita força e ensinamentos em conseguir superar essa dor juntos. Aqueles paradigmas que as pessoas impõe ao homem após a perda do filho não deve existir, que ele precisa estar bem para eu me sentir bem, ou de perguntarem como eu estou, ao invés de perguntar como ele está após se ver tomando decisões inimagináveis com questões burocracias de um sepultamento e enterro do seu filho. Não podemos deixar de escanteio a dor de um pai que perdeu seu filho, em pensar que ele não sofre tanto quando a mãe. Ainda passamos por momentos únicos, onde é eu por ele, e ele por mim. Um sendo pilar do outro, um disposto a apoiar o outro. E é isso nos faz bem” expõe Thayla Araujo. 

Ainda acredito que o maior deles é aprender e ensinar as pessoas a falar sobre o bebê sem pesar, com amor, afeto e carinho. Ensinar a manter viva a lembrança mais doce que a vida pode trazer.

Mal sabem o quanto me faz bem falar do meu filho, e sobre os ensinamentos que ele me trouxe. Às vezes, não é preciso de muito. Um abraço silencioso, um estou aqui pra o que você precisar,  um sinto muito pelo que está passando, vale mais do que palavras que acham que me consolam como você é jovem, terá oportunidade de ter outros filhos, Deus faz as coisas certas, pensa que seu filho poderia sofrer ainda mais se estivesse vivo agora. Apesar da perda, o Romeu veio para me trazer amor. Ele existiu. Ninguém vai apagar isso. Tenho medo de passar por tudo novamente, mas a vontade de nos tornarmos pais novamente é grande. Com o Romeu, descobri o que é amor de verdade,” relembra Thayla Araujo.

Porque sim! Existe um arco íris após a tempestade

“Nas minhas orações pedia para Deus me ajudar a engravidar antes do dia dos pai, porque queria muito dar esse presente para meu marido, e em julho de 2019 descobri que estava grávida, foi uma alegria, porém, dessa vez fiquei quieta não falei pra muita gente só pra família, estava feliz e ao mesmo tempo preocupada, com medo, porque  quando passamos por uma perda é difícil, então fica aquele medo. Fiz meu primeiro usg com 8 semanas, exatamente o mês tempo que perdi o outro bebê, estava com medo, mal consegui dormir na noite anterior.

Minha sobrinha foi comigo, porque meu marido não pode ir,  por causa do serviço, estava apreensiva e a médica percebeu, eu contei pra ela que tinha perdido um bebê com 8 semanas e estava com medo de fazer o ultrassom. Ela disse:” calma vou colocar o coração pra você ouvir assim  ficará tranquila”, ouvi o coração e respirei aliviada, aí ela falou:” agora vou colocar o coração do outro bebê pra vc ouvir” Eu falei outro bebê? “Ela falou sim, são gêmeos” Na hora eu fiquei tão surpresa, que comecei a chorar, foi uma mistura de gratidão, com medo que não sei explicar ao certo”.

Minha gestação foi ótima, não tive nada, só no final que precisei me internar mas, meus filhos são perfeitos, eles são tudo que pedi pra Deus, até mais porque pedi um e ele me mandou dois, hoje vejo que os planos de Deus realmente são os melhores, levou um para perto dele mais me mandou dois, como disse um filho nunca substitui o outro mas, ameniza nossa dor, espero que minha história ajude outras mães que passaram por essa situação e tentam engravidar, mesmo que seja difícil, Deus tem um propósito e tudo acontece na hora certa,” finaliza Juliana Toni.

Filho: Um amor indivisível cada filho terá seu único amor, um amor infinito e além, um eterno aprendizado, sobre amar, doar, receber, capacitar, educar, uma certeza diante os medos da vida, calmaria no meio das turbulências, as memórias mais lindas e preocupantes que você vai vivenciar. Mas, às vezes para algumas mães é somente a tão sem definição e explicação Saudade. 

Que todas as mães de anjo sejam acolhidas com a imensidão do amor que elas exalam no mundo.

*Marcela Oliveira é enfermeira especialista em Gestão de Pessoas, possui experiência em processos de enfermagem na coleta de exames laboratoriais na empresa DASA. Além de já ter atuado como enfermeira assistencial no Hospital Albert Einstein. Atualmente é coordenadora de enfermagem nas empresas Dr. Consulta e Unimed Guarulhos.