Consciência Negra: Guarulhos é um dos polos da nova musicalidade negra no Brasil


Se Mamonas Assassinas é a sua última referência de identidade musical que nasceu em Guarulhos, já está mais do que na hora de você se atualizar. A cidade segue lançando artistas marcados pela originalidade que fura a bolha do município, alcançando públicos afora.

Considerando que, Guarulhos possui extensa área periférica e uma expressiva população negra (cerca de 45%, de acordo com o Censo Demográfico do IGBE de 2010), as formas de arte e cultura negra não só compõe, como se destacam na nova leva original, jovem e pulsante da cidade.

Do Rap ao Trap

Introduzida no Brasil nos anos 1990, a disputa de rap passou a ganhar notoriedade nacional após o sucesso da Batalha da Santa Cruz, realizada todo sábado em frente à estação homônima do Metrô, na capital paulista.

Porém, Guarulhos também formou disputas de peso tanto no centro quanto na periferia: Batalha da Matriz, Batalha dos Estudantes, Batalha do Pimentas, Slam do Prego, entre outras.

A cultura hip hop da cidade fez nascer diversos nomes, que hoje em dia além da rima, também atuam como produtores, videomakers, entre outras funções, trabalhando com outros artistas e movimentando toda a cena.

Entre eles é possível citar o Moikas, que está na frente da produtora 1t1t, e Lucas Branko, que hoje toma a frente da Damn Producers com o videomaker Lucas Monteiro. Ambas são responsáveis por produzir diversos outros artistas do RAP e do TRAP.

Vertente que não só existe, como nasceu em Guarulhos, tendo como um dos principais nomes o artista Raffa Moreira, que bombou em 2017 após “Bro”, clipe com mais de 19 milhões de views.

Como um “filho do rap”, o trap é uma vertente musical de autoafirmação do estilo de vida e da estética negra. Ousado e mais ritmado que o rap tradicional, o trap tem semelhanças com o funk tanto na musicalidade quanto na letra.

Celebração e a ostentação do negro que conseguiu ascender na sociedade. Como um exemplo, a música “Givenchy” de Raffa Moreira, com clipe lançado em outubro desse ano, diz que “ouro combina com preto”.

Dessa leva de Raffa Moreira, vieram Moah, Klyn, Rare Kidd, Rhyno, French Carti, e diversos outros. O que se vê atualmente na cena do rap da cidade é uma mistura entre o rap e o trap de maneira orgânica e experimental.

Música consciente

Assim como a crítica social está no rap, ela também vive em outros estilos que surgem e resistem em Guarulhos. Bebendo dessa fonte da consciência social, as Despejadas (grupo formado somente por mulheres), trazem poesia somadas à ritmos brasileiros com foco em voz e percussão. 

Formada na periferia, a banda usa a música como forma de protesto e celebração, trazendo músicas que falam sobre racismo, machismo, o genocídio da juventude negra e a LGBTQfobia.

Em “Vestido de Preto”, por exemplo, o grupo canta que “a carta é branca e mata o preto, sem nem olhar a cara”, escancarando a violência desse grupo de pessoas que é assassinada a cada 23 minutos no Brasil.

Também inserida na MPB, entre os artistas com novas propostas está Miranda Caê, a Drag Queen que nasceu pelo trabalho artístico de Jadson Siqueira. Com tom melódico em mistura de influências do samba e do R&B, Miranda sua voz e timbre próprio para falar de amor e coragem de ser quem é.

Em “Bicho de Mil Faces”, ela fala com o espelho para dar essa dimensão de orgulho pelo que se tornou. Para fechar o assunto sobre artistas negros que saíram de Guarulhos para conquistar o mundo, é impossível não citar a música de Edgar, que também deita e rola na letra consciente e social.

Original, o estilo futurista do rapper e compositor vem alcançando diversos públicos e com toda certeza, já influencia uma nova geração de músicos que podem estar chegando.

Vanguardista em sua musicalidade, o artista inova em todas as esferas, a destacar sua performance que vai muito além da música. Envolvido com moda e teatro, os shows de Edgar são verdadeiras experiências.  

*Beatriz Mazzei é graduada em Jornalismo e moradora de Guarulhos, assessora de imprensa de cultura e entretenimento, repórter de temáticas sociais e de gênero, e escritora de contos, crônicas e poesias curtas.