Literatura guarulhense: uma resenha de “Colo Invisível” de Luciene Muller

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Em autoficção, Luciene Muller conta sobre sua trajetória de superação contínua após infância vivida nas ruas. Confira a resenha (sem spoilers)

No momento em que reservo para escrever sobre esse livro chove e venta forte lá fora, enquanto eu, segura, me abrigo em uma casa de paredes sólidas. Saber que chove deixa ainda mais difícil a tarefa de falar sobre o livro “Colo Invisível” sem me emocionar, mas irei começar pelo sorriso, sabendo que até quem mostra os dentes carrega consigo um pouco de água nos olhos de vez em quando.

“Colo Invisível” é uma autoficção (uma mescla de autobiografia e ficção) e o primeiro livro de Luciene Müller, uma mulher que sorri muito. Além de escritora, Luciene é empreendedora e está à frente do Gastrobar Don Cordelli em Guarulhos, onde vive há mais de 20 anos e pôde se reescrever. 

No Don Cordelli está sempre sorrindo ao receber os clientes. Seu sorriso é tão sincero e marcante, que ganhou destaque em uma passagem de seu livro. Dividido em capítulos curtos e intensos, que deixam a leitura dinâmica, “Colo Invisível” traz um trecho só para falar do sorriso da autora e existe uma razão para isso: tudo que ela viveu poderia impedi-la de sorrir.

Ainda criança, Luciene se viu obrigada a fugir de casa, quando essa estava longe de ser um lar. Com três anos perdeu a mãe, teve o irmão mais novo adotado e viu o pai perde-se em vida com o álcool e falta de controle psicológico e emocional.

O cenário se agravou com a chegada de uma madrasta que a agredia. Assim, pequena e sozinha, viveu a vulnerabilidade social e a falta de carinho das ruas por anos até ser resgatada por suas tias.

Por conta desse enredo, “Colo Invisível” é um livro com passagens chocantes, que nos causam revolta, mas ao mesmo tempo a linguagem da autora nos refresca.

Simples e direta, mas cheia de metáforas, colocações fortes e uma pitada de poesia, é como se a Luciene adulta, nascida em 1982, conversasse com sua versão menina e as duas, juntas, dessem as mãos para escrever a história.

Essa habilidade na escrita tem uma raiz forte: em uma das trajetórias de Luciene, a menina acabou morando em uma biblioteca, onde passou a mergulhar dentro dos livros em uma mistura de curiosidade e escapismo.

Os livros deram colo para a garota, e a gratidão que ela tem ao conhecimento e à cada pessoa que a ajudou durante sua história fica evidente em seu esmero pelas palavras, que apesar de fortes, são gentis.

A dor perpassa a história, mas existe um teor singelo e afetuoso que nos faz enxergar tudo com um pouco mais de humanidade, que no fim das contas, é o ponto essencial da leitura:  Não existe violões, bonzinhos e nem um final feliz estático.

A obra nos lembra o quanto a história de cada pessoa é um amontoado de cicatrizes por vezes muito profundas, mas que podem e devem encontrar afago nos colos que permitimos dar e receber ao longo da vida.

*Beatriz Mazzei é graduada em Jornalismo e moradora de Guarulhos, assessora de imprensa de cultura e entretenimento, repórter de temáticas sociais e de gênero, e escritora de contos, crônicas e poesias curtas.