Como as redes sociais reforçam padrões de beleza irreais e incansáveis

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Há tempos a indústria da beleza lucra com a exaltação de corpos irreais; as redes sociais se transformaram em grandes propagadoras na procura por procedimentos estéticos

Desde anos atrás, a mídia já implantava, através, principalmente, das capas de revistas, um ‘padrão de beleza’ na sociedade. Com o passar do tempo, e a quase extinção dos impressos, as redes sociais passaram a ocupar esse papel, por meio da exaltação de corpos perfeitos, que despertam o desejo de se encaixar em um padrão imposto e irreal.

Hoje em dia é fácil perceber a influência das redes sociais na vida pessoal do ser humano, na maneira de ser, falar, se vestir e, principalmente, se enxergar. Os impactos causados por elas são cada vez mais preocupantes.

Uma das redes sociais mais usadas do mundo atualmente é o Instagram, com 69 milhões de usuários em 2019, segundo relatório digital divulgado pela DataReportal. Segundo a Royal Society for Public Health (RSPH) é também uma das plataformas que mais influenciam o sentimento de solidão e crises de auto estima.

Um estudo realizado em 2017 pela RSPH em parceria com o Movimento de Saúde Jovem (YHM) mostra que o Instagram é a rede social mais prejudicial para a saúde mental dos jovens, gerando ansiedade e afetando a qualidade e quantidade de sono dos usuários, além de interferir na auto aceitação pessoal dos que acompanham a plataforma.

Padrão de beleza virtual

Foram criados no Instagram, efeitos para ‘stories’, que começaram com intuito de divertir e entreter, mas que acabam tomando rumos muito além. Grande parte dos efeitos mexem diretamente com a aparência do público, aumentando a boca, afinando o rosto e o nariz e transformando completamente a aparência do usuário, esta fonte de inspiração de beleza ‘falsa’, reflete diretamente na imagem formada pelo indivíduo sobre si.

Uma pesquisa feita pela Academia Americana de Cirurgiões Plásticos revelou que 55% das rinoplastias feitas em 2017 foram com a intenção de sair bem em selfies. Se antes a procura era para se sentir bonito(a) na “vida real”, hoje o desejo é sair como nos filtros embelezadores. Poder enxergar-se de uma maneira modifica o tempo inteiro nas redes sociais, afeta a forma como os usuários se enxergam ao natural, levando-os acreditar que precisam se encaixar aos padrões de beleza virtuais para se sentir bem.

Atualmente, os procedimentos estéticos vêm ganhando bastante popularidade, entre eles o preenchimento labial e a harmonização facial, que se destacam especialmente por se assemelhar aos filtros do Instagram.

A fixação por uma beleza computadorizada é prejudicial tanto psicologicamente quanto fisicamente, levando em conta que nem sempre os procedimentos chegarão aos resultados exibidos pelo filtro.

Normalização de procedimentos estéticos

As cirurgias plásticas são cada vez mais sonhadas e normalizadas, principalmente entre as mulheres e através do meio influente, que propaga e engaja os procedimentos estéticos como algo “natural” e necessário para sentir-se bem. A normalização desses procedimentos é um impasse para o fim do ideal de beleza exaltado pela internet, levando em conta que não é possível acabar com os padrões sem se aceitar naturalmente.

No Brasil, uma pesquisa feita pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mostra que nos últimos dez anos, houve um aumento de 141% no número de procedimentos estéticos feitos por adolescentes entre 13 e 18 anos, tendo a maioria procurado pela curiosidade despertada através das redes sociais e pessoas famosas que engajam tão naturalmente cada procedimento realizado. Visto isso, o Instagram e o Facebook começaram a restringir publicações sobre cirurgias e emagrecimento para usuários menores de idade.

Apesar do movimento ‘Body positive’ (positividade corporal), também em alta nas redes sociais, que busca convencer as pessoas a se aceitarem, vivemos em tempos onde publicar uma foto real, sem pele perfeita, com acnes e manchas é um ato de coragem, e por maior que seja a luta contra o padrão de beleza imposto a sociedade, encontra-se sempre uma maneira de esconder e anular a beleza natural do ser humano e exaltar corpos irreais.

Os procedimentos estéticos podem ser uma escolha, mas não deveriam se tornar algo convencional a ponto de colocar uma venda sobre a beleza natural do próprio corpo. Antes de qualquer procedimento, se amar e trabalhar a auto aceitação é o mais importante, por mais difícil que seja o processo. É possível ser real sem perder o encanto e a beleza. Consumir e exaltar belezas e corpos reais é o primeiro passo para exaltar a si mesmo(a).