“O Dilema das Redes” reduz o protagonismo das pessoas

Foto: Divulgação/Netflix

Por Elemar Júnior

Documentário lançado pela Netflix reforça uma imagem perversa das redes sociais

Ao longo de setembro, a discussão sobre tecnologias que envolvem Inteligência Artificial foi intensificada pelo documentário “O Dilema das Redes” (2020), que estreou na Netflix Brasil. O barulho foi gerado por declarações consideradas polêmicas de profissionais que fizeram parte da idealização de grandes empresas digitais, como Google, Facebook, Instagram, Pinterest, Twitter, entre outros.

Nas entrevistas, ex-engenheiros e ex-executivos relatam detalhes de como as redes sociais utilizam os dados dos usuários para invadir a privacidade, manipular e moldar o comportamento da humanidade, partindo da premissa que as pessoas são o principal produto da Era Digital.

Na verdade, historicamente, a economia sempre criou e aplicou táticas de retenção. Há muitos exemplos: em lojas, produtos infantis são posicionados em pontos mais baixos das prateleiras. As padarias de supermercados são localizadas no fundo e próximas às geladeiras cheias de laticínios. Casas de show e baladas, até pouco tempo atrás, lamentavelmente, cobravam entradas mais baratas para o público feminino.

Da mesma forma, hoje, um Youtuber ou um dono de e-commerce utilizam recursos para manter seus visitantes. Na lógica do mundo digitalizado, esse mesmo mecanismo para criar dependência no consumidor foi simplesmente transferido para o meio digital e as redes sociais, com um detalhe: o que antes era feito para as massas, agora pode ser reproduzido de forma individualizada.

Por esse motivo, “O Dilema das Redes” parte de uma premissa simplória que reduz o consumidor a um ser inocente, manipulável e sem pensamento crítico para decidir se quer acreditar em algo, engajar-se em uma causa ou adquirir algum produto ou serviço. De certa forma, precisamos refletir o quanto da responsabilidade pelas ações que tomamos não estão sendo transferidas para outros.

Cenas como a da mãe que coloca o smartphone da filha pré-adolescente em uma caixa-cofre e esta a quebra com um martelo para recuperá-lo exemplificam o exagero para tratar de um tema muito mais complexo. Não é aceitável pensar que a mãe deixaria chegar naquele ponto para identificar uma dependência.

É claro que as técnicas de Inteligência Artificial implementadas por essas empresas não podem ser usadas de forma deliberada. Precisamos de práticas e políticas de regulamentação. Porém, não de uma forma a retroceder um avanço da tecnologia que, a meu ver, não é possível frear.

A solução, como em tudo o que se quer modificar, seria pela educação. É preciso reiterar que a mídia é só um canal e encontrar uma forma de desenvolver maior resiliência e defesa contra as investidas marqueteiras. E não alimentar uma bolha livre de uma responsabilidade que é de todos nós.

Em conclusão, apesar de levantar uma discussão de extrema importância, a Netflix – que ironicamente também se utiliza de diversas artimanhas de retenção – reforça uma imagem perversa das redes sociais, o que só contribui para criar uma sociedade que pouco sabe lidar com as frustrações. O caminho é retomar o protagonismo das pessoas como seres que têm pensamento crítico e poder de resposta.