Pacientes com câncer morrem seis vezes mais por Covid-19, aponta estudo

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Nesta quinta-feira (08), é celebrado o Dia Mundial de Combate ao Câncer; no Brasil, 259.949 óbitos por tumor maligno foram registrados em 2020

Um estudo liderado pelo Grupo Oncoclínicas, publicado no início de 2021 pelo Journal of Clinical Oncology (JCO), mostrou que pacientes com câncer tiveram taxa de mortalidade pelo novo coronavírus seis vezes maior se comparada aos números gerais registrados até então.

Ao todo, 198 participantes foram pesquisados. Destes, 167 (84%) tinham tumores sólidos e 31 (16%) neoplasias hematológicas (no sangue). A maioria deles estava em terapia sistêmica ativa ou radioterapia (77%).

De acordo com o estudo, a mortalidade geral por complicações de Covid-19 foi de 16,7%. Os fatores associados à morte após o diagnóstico de contaminação pelo coronavírus foram: tratamento em um ambiente não curativo, idade superior a 60 anos, tabagismo atual ou anterior, comorbidades coexistentes e câncer do trato respiratório.

Para o oncologista Bruno Ferrari, fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Oncoclínicas, é necessária a inclusão dos pacientes com câncer no Plano Nacional de Imunização (PNI). O câncer faz parte da lista de doenças estabelecida pelo Ministério da Saúde cujo tratamento não pode ser considerado eletivo.

“A análise endossa as recomendações para termos ações que contribuam para minimizar os riscos de infecção pelo SARS-CoV-2 entre pacientes com câncer e indica o senso de urgência da vacinação para essas pessoas. Diante do cenário que vivemos, com altos índices de contaminação e ocupação dos leitos hospitalares no limite, temos que considerar a inclusão específica dessa parcela da população no Plano Nacional de Imunização” afirmou Ferrari.

Atualmente, pacientes oncológicos estão incluídos no contingente de 17,8 milhões de indivíduos que compõem uma lista de comorbidades desenvolvida pelo Governo Federal. Entre outras comorbidades também consta obesidade, diabetes, cardiopatias e hipertensão.

No PNI, a fase 3 contempla todos os litados. Contudo, não há ainda um escalonamento claro de como se dará a agenda de vacinação, considerando as especificidades e graus de risco de cada uma dessas doenças associadas ao agravamento da Covid-19.

A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) encaminhou ofício ao Ministério da Saúde solicitando prioridade na vacinação para quem passa pelo tratamento contra o câncer.

Pandemia

A Organização Mundial da Saúde (OMS) ressalta que, neste momento, não é possível ter uma visão apurada sobre os impactos diretos da pandemia na luta contra o câncer. Porém, a entidade alerta que há motivos para preocupação com as consequências da situação atual para a oncologia.

Um levantamento do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), realizado em 2020, reforça essa percepção: mais de 700 pessoas entre pacientes oncológicos, cuidadores e profissionais de saúde, disseram sentir o impacto da pandemia na oncologia.

Dos pacientes consultados, 38% afirmaram ter remarcado consultas com especialista por decisão própria, ou a pedido da instituição onde realizam acompanhamento. Já 28% sofreram alterações de agenda para realizar os exames de acompanhamento da doença.

No campo dos profissionais de saúde, 34% afirmaram que tiveram pacientes com cirurgias oncológicas adiadas. Além disso, entre os tratamentos mais comuns indicados para tumores malignos, 17% observaram que foram necessárias remarcações de sessões de radioterapia e outros 15% de quimioterapia.

“Para o paciente, a interrupção na linha de cuidados pode levar ao agravamento da doença e de fato reduzir amplamente as chances de cura. Há um ano estávamos aprendendo a lidar com a falta de conhecimento sobre o novo coronavírus e, de fato, a ausência de informações precisas acabou gerando uma onda de adiamentos das terapias por pacientes receosos com uma possível exposição à Covid-19”, destacou Ferrari.

O relatório Radar do Câncer, divulgado em março pelo Instituto Oncoguia com informações do DataSUS, aponta queda no volume de biópsias realizadas no país. Em números absolutos, a redução foi de 737.804 para 449.275. A comparação é feita entre os meses de março a dezembro do ano passado com o mesmo período em 2019.

Isso significa uma redução de 39% na realização desse procedimento que, apesar de classificado como eletivo, é essencial para a definição de condutas no combate ao câncer.

“O adiamento nos acompanhamentos médicos de rotina podem ter como consequência um aumento nos índices de tumores descobertos em fase mais avançada […]. E esse é um problema de saúde pública que deverá mudar o panorama do câncer, com aumento da letalidade e reflexos negativos em termos de qualidade de vida dos pacientes”, disse o médico.

Atendimento on-line

Ferrari também alertou para a necessidade da população em geral não se descuidar da saúde: “diante do receio de sair de casa para buscar atendimento especializado, há a alternativa de agendar uma consulta remota para evitar deslocamentos desnecessários”.

“Nada substitui uma consulta presencial, mas esses são tempos diferentes de tudo o que já vivemos e precisamos nos adaptar da melhor forma possível. A telemedicina tem se provado ser uma grande aliada e, por meio dela, seu médico sempre saberá indicar, por conhecer suas características, o que é melhor para você. E se não tiver um profissional de sua confiança, busque sempre a opinião de um especialista habilitado para que seja possível receber orientações precisas para o seu caso antes de qualquer tomada de decisão”, concluiu.

O que diz a OMS

Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc, sigla do inglês), entidade ligada à OMS, informou que nas duas últimas décadas o número total de novos casos de câncer quase dobrou. O salto foi de 10 milhões estimados em 2000 para 19,3 milhões em 2020.

Além disso, em todo o mundo, um total de mais de 50 milhões de pessoas compõem o contingente de pacientes que vivem atualmente os chamados cinco anos de prevalência do câncer.

A Globocan (projeto da Iarc) 2020 indicou que para os próximos anos há uma tendência de elevação dos índices de detecção do câncer. Eles devem superar o patamar de quase 50% em 2040 em comparação ao cenário atual – quando o mundo deve registrar algo em torno de 28,4 milhões de novos casos de câncer.

Isso significa que a cada cinco pessoas, uma terá câncer em alguma fase da vida. Nos países mais pobres, a incidência da doença deve ter um crescimento superior a 80%. As mortes por câncer subiram de 6,2 milhões em 2000 para 10 milhões em 2020.

No Brasil, apenas em 2020, foram diagnosticados 592.212 novos casos e registrados 259.949 óbitos em decorrência de neoplasias malignas. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) indicam que, até o final de 2021, é esperado o registro de ao menos outros 625 mil diagnósticos de câncer.